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Proposta de operacionalização da oferta de atividades de ensino remoto emergencial em universidades durante a pandemia


A disseminação do meu texto de reflexões sobre o retorno às atividades de ensino remoto durante o período de isolamento devido à COVID-19 teve um impacto bastante positivo nas discussões que tive com vários colegas, tanto da UTFPR, quanto de outras instituições de ensino. Ressalto que não tenho formação em educação e não domino ferramentas e métodos de ensino inovadores ou à distância, porém acompanho a realidade de uma universidade centenária e, com base nas dificuldades enfrentadas, tento oferecer a minha contribuição.

Um grande assunto em discussão é a operacionalização das atividades de ensino durante a pandemia do coronavírus em universidades públicas, o que tem dividido opiniões. Certamente não existe uma solução universal para um problema tão cheio de nuances, mas o diálogo nos ajuda a construir soluções que, preferencialmente, deveriam ser mais inclusivas e menos burocráticas.

Antes de apresentar algumas ideias que considero fundamentais para uma melhor operacionalização destas atividades, vou me apropriar do termo unidades de formação para fazer referência a cursos, disciplinas, debates, palestras, rodas de conversa, mesas redondas, minicursos e qualquer outra atividade que se decida ofertar de modo virtual em um período de suspensão nas atividades presenciais. Além disso, vou também me apropriar do termo atividades remotas para fazer referência à forma como as unidades de formação serão conduzidas, sejam elas no modo de Ensino à Distância (EaD), ensino virtual ou ensino remoto.

Listo abaixo 6 aspectos fundamentais para a correta operacionalização.

1. Uma alternativa à burocracia tradicional

Quem teve acesso ao meu texto anterior sabe que propus o "congelamento" do semestre 2020/1 e a criação de um calendário suplementar para atividades avulsas de ensino que, naquele texto, me referi como cursos de extensão. Como não se trata de extensão, decidi adotar a nomenclatura unidades de formação. Essas unidades são cursos (de curta, média ou longa duração) sobre quaisquer tópicos que o corpo docente da universidade se sinta apto a oferecer. Naturalmente, muitas dessas unidades de formação serão disciplinas ou tópicos selecionados com os quais o docente já está habituado a trabalhar.

O "congelamento" do semestre presencial é necessário para garantir a matrícula e, consequentemente, o vínculo institucional de alunos que não vão ter condições de prosseguir com atividades de ensino, mas que recebem bolsas de apoio, por exemplo. Já a abertura de um calendário suplementar, abre a possibilidade de se ofertar unidades de formação com os mais variados tamanhos e temas, oferecendo uma oportunidade de formação complementar aos alunos da instituição.

Muito provavelmente, a maioria dos professores não está 100% preparada para as atividades remotas de ensino, então a flexibilização do tempo de duração e dos temas abordados em cada unidade de formação é uma estratégia fundamental, a qual servirá como incentivo ao docente na elaboração dos seus materiais e na utilização de recursos inovadores.

Em resumo:
  • Alunos: ficam livres do sentimento de obrigatoriedade em tempos onde a saúde mental é mais importante; têm a oportunidade de escolher o que podem e querem cursar; podem aprender tópicos que não seriam vistos originalmente em seus cursos regulares; estarão limitados a um número pré-definido de unidades de formação.
  • Professores: ficam livres para escolher conteúdos com os quais se sentem confortáveis; não precisam lidar com burocracias desnecessárias e desistências em massa em suas disciplinas; se não estiverem envolvidos em projetos contra a COVID-19, podem propor uma quantidade de cursos compatível com seu tempo disponível.

2. Design de unidades de formação para ambientes virtuais e plataformas de apoio ao ensino

Para que as atividades remotas sejam viabilizadas da melhor maneira possível, é importante que se façam boas escolhas por ambientes virtuais e plataformas de apoio ao ensino. A liberdade de escolha do docente é importante, mas algumas orientações institucionais podem surtir efeitos mais positivos. Por exemplo, incentivar o uso do AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), frequentemente implementado com o sistema Moodle, ou do GSuite, um conjunto de ferramentas do Google, pode aumentar as chances de integrações entre docentes e facilitar o gerenciamento e a permanência de estudantes.

Outro aspecto fundamental é a elaboração de um plano de ensino para a unidade de formação pensado desde a sua concepção para os ambientes virtuais. Portanto, havendo a necessidade de se utilizar softwares ou equipamentos que não são de fácil acesso (licenças muito caras, equipamentos grandes e de alto custo, necessidade de supervisão etc.), poderia inviabilizar a oferta ou motivar o docente a buscar soluções alternativas. O importante é: fazer o design da unidade de formação para o ensino virtual desde o início, inclusive prevendo formas de avaliação.

As avaliações podem explorar características de ambientes de aprendizagem como questionários com autocorreção ou ferramentas virtuais de gamificação (ou ludificação). Independente dos métodos de avaliação escolhidos, o importante é que eles entrem nas “regras do jogo”, apresentadas ao estudante antes do mesmo efetuar sua inscrição.

Em resumo:
  • Alunos: encontram todas as informações de cursos disponíveis em um único lugar; aprendem a usar a plataforma de aprendizagem apenas uma vez.
  • Professores: são beneficiados com a divulgação integrada de conteúdos, evitando desgastes; têm a oportunidade de experimentar ferramentas EAD de uma maneira mais ativa.

3. Priorizar o formato assíncrono sempre que possível

É fundamental que as disciplinas sejam ofertadas de maneira assíncrona, permitindo que os estudantes acessem o material sob demanda. Essa é a atitude mais inclusiva, pois permite que o estudante faça um planejamento mais adequado dos seus estudos, escolhendo horários mais propícios e convenientes. Além disso, se o estudante não tem acesso à Internet ou este acesso é limitado, o material pode ser baixado previamente para estudo de maneira offline

Caso o formato assíncrono não seja possível, seja pela natureza da unidade de formação ou por outro motivo arbitrário, é importante que se faça a gravação do conteúdo para disponibilização futura.

Em resumo:
  • Alunos: têm mais flexibilidade no acesso aos conteúdos, seguindo a tendência on demand.
  • Professores: podem editar seus materiais para torná-los mais objetivos e interessantes.

4. Estratégia de divulgação massiva

Todos concordamos que o esforço necessário para a elaboração de unidades de formação nos moldes acima explanados é bastante grande. Para que tal iniciativa impacte positivamente na vida de um maior número de pessoas, é importante uma clara e eficiente estratégia de divulgação, visando atingir tanto a comunidade interna (que está, em parte, ociosa e apta a consumir as unidades de formação), quanto a comunidade externa (que pode nunca ter tido a oportunidade de conhecer o trabalho desenvolvido nas instituições públicas).

Além de estratégias de divulgação às quais já estamos habituados, seria importante a criação de um portal para este conjunto de unidades de formação que pudesse concentrar, de maneira interessante e organizada, todas as ofertas disponíveis. Para cada unidade, seria importante apresentar uma ficha completa contendo informações como duração, requisitos de hardware e software necessários, tipo de avaliação e informações sobre a emissão de certificado de conclusão. Tudo isso visa munir o estudante com a informação necessária para escolher o que cursar.

Em resumo:
  • Alunos: se forem membros externos, encontrarão os conteúdos em um único lugar, de maneira organizada.
  • Professores: têm a possibilidade de criar unidades de formação que se integrem a outras unidades de sua própria autoria ou de colegas docentes.

5. Como um estudante regular pode aproveitar o aprendizado

Uma pergunta frequente é: como garantir a qualidade do aprendizado de maneira virtual? Ou: como garantir que o estudante aprendeu, de fato, aquela unidade de formação? Obviamente, os métodos empregados em cursos EaD poderiam ser incorporados à proposta, mas nem sempre se detém o conhecimento de tal metodologia, então uma estratégia importante de validação seria um instrumento de avaliação tradicional aplicado de modo presencial.

Não se pensa em retorno presencial ainda, mas podemos utilizar os tempo de quarentena para fornecer conteúdos aos estudantes, os quais poderão ser aproveitados posteriormente para efeitos de convalidação. Como isso pode ser operacionalizado? Depende da instituição. Uma maneira simples seria a aplicação de um exame de suficiência (ou equivalência) assim que for seguro retornar às atividades presenciais, mesmo que de maneira escalonada.

Em resumo:
  • Alunos: conseguem aproveitar os conhecimentos devidamente certificados e tem a possibilidade de convalidá-los como disciplinas regulares.
  • Professores: poderão obter experiência com ferramentas de avaliação virtuais.

6. Não podemos confundir com extensão

Por fim, é importante que não se confunda esta proposta com cursos de extensão. A extensão tem propósitos diferentes e pode, sim, figurar como parte de uma atividade de ensino. Aliás, isso reafirma a indissociabilidade de Ensino, Pesquisa e Extensão, que são os pilares fundamentais de uma universidade.

Exemplos inspiradores

A UTFPR Pato Branco oferece cursos de média duração em uma parceria com a prefeitura da cidade, por meio da Escola Pato Branco Digital.

A UFSCar oferece, por meio de sua plataforma de Extensão, as Atividades Curriculares de Integração Ensino, Pesquisa e Extensão (ACIEPEs), que podem servir de inspiração para esta operacionalização.

A UEM anunciou a realização de atividades extracurriculares para estudantes de graduação, em moldes muito similares com os propostos e discutidos neste blog.

Confira também uma lista de posts que podem auxiliar docentes e estudantes neste momento:

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